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26 de maio de 2026Alana Gandra
Agência Brasil
A taxa de homicídios no Brasil chegou, em 2024, ao menor patamar desde o início da série histórica do Atlas da Violência, iniciada em 2014. A pesquisa é realizada anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e foi divulgada nesta terça-feira (26).



O país registrou 20,1 assassinatos para cada 100 mil habitantes, uma taxa 7,4% menor que a de 2023. Em números absolutos, foram 42.590 homicídios em 2024, o que representa uma queda de 6,9%.
O estudo foi produzido a partir de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde (MS).
A análise do período 2014-2024 revela que a taxa nacional de homicídios apresentou queda de 33,4%, com o número de homicídios diminuindo 29,6%.
Nesses 10 anos, o Amapá foi a única unidade da Federação que apresentou aumento expressivo tanto da taxa (+30,2%) quanto do número de homicídios (+41,8%).
O estudo aponta para um aumento significativo da subnotificação desses crimes. Da mesma maneira, a percepção de insegurança da população segue em alta.
Na avaliação do coordenador do Atlas da Violência, Daniel Cerqueira, técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, o Brasil está passando por uma transição forte. Ao mesmo tempo em que vive a redução de homicídios, o país registra aumento da insegurança e manutenção ou crescimento das desigualdades que afetam populações minoritárias.
Em entrevista à Agência Brasil, Daniel Cerqueira disse que a taxa de homicídios, além de ser a menor da série histórica da pesquisa, também é a mais baixa desde 1998. Apesar disso, ele destacou que a piora da qualidade dos dados em 2024 surpreendeu os pesquisadores.
“Esperávamos que houvesse menos ou, pelo menos, o mesmo número de mortes violentas por causa indeterminada. Isso não ocorreu. Pelo contrário, o número aumentou muito em 2024 e fez sombra a essa queda histórica”.
Desigualdades regionais
O Atlas da Violência 2026 mostra que a melhora da taxa de homicídios em 2024 foi relativamente disseminada em todo o país. Entre as taxas estaduais, apenas Maranhão e Ceará apresentaram aumentos relevantes entre 2023 e 2024, de 7,6% e 5,2%, respectivamente, enquanto São Paulo permaneceu estável.
As quedas mais intensas ocorreram no Amapá (-30,0%), Tocantins (-26,7%), Sergipe (-24,8%), Roraima (-22,8%) e Acre (-20,5%). Quando se observa o número absoluto de homicídios, as maiores diminuições foram no Rio de Janeiro (-772 casos), na Bahia (-555), no Rio Grande do Sul (-280), em Goiás (-229) e no Amazonas (-229).
A publicação confirma a manutenção da tendência de redução da violência letal no país, embora de forma heterogênea entre os estados. Em 2024, as menores taxas oficiais de homicídios foram registradas em São Paulo (6,6 por 100 mil habitantes), Santa Catarina (8,1), Distrito Federal (10,3), Minas Gerais (12,8) e Rio Grande do Sul (15,2).
Já as maiores taxas ocorreram no Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3).
Entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, 17 dos 20 mais violentos estão localizados no Nordeste, enquanto as 20 cidades menos violentas estão concentradas exclusivamente nas regiões Sul e Sudeste.
Diferenças históricas de desenvolvimento econômico, capacidade institucional, dinâmica demográfica e presença do crime organizado explicariam essas desigualdades de territórios, segundo o Atlas.
Homicídios ocultos
Os casos em que o Estado não consegue identificar a causa básica do óbito como decorrente de acidentes, suicídios ou assassinatos são classificados como Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Essas mortes somaram 3.311 casos em 2024, com expansão de 23,8%, em relação a 2023.
O Atlas sinaliza que 17.207 pessoas morreram de morte violenta, em 2024, sem que a motivação básica do óbito tivesse sido identificada. De acordo com o Ipea, quase metade (41%) desses casos sem causa definida corresponde, na verdade, a homicídios subnotificados.
Os pesquisadores consideram que o avanço dessas Mortes Violentas por Causa Indeterminada, que ficam de fora das estatísticas oficiais de segurança pública, dificulta o combate à violência.
Para se debruçar sobre esse problema, os pesquisadores desenvolveram metodologia capaz de identificar, dentre as MVCI, quais têm maior probabilidade de corresponder a assassinatos. Esses casos passaram a ser chamados de homicídios ocultos aos números oficiais, e a soma deles com os números oficiais foram classificados como homicídios estimados.
Daniel Cerqueira informou que, a partir dessa metodologia, verificou-se que das 17.207 mortes violentas ocorridas em 2024 sem causa determinada, 7.083 foram homicídios não classificados como tal, ou que são chamados de homicídios ocultos.
“O modelo acha, probabilisticamente, padrões de letalidade (homicídio ou não homicídio), olhando as características das vítimas e das situações em que aconteceram os fatos”.
Entre as possíveis razões para essa subnotificação, ele aponta a falta de compartilhamento de informação entre a saúde e a polícia.
O Atlas da Violência 2026 mostra que, entre 2023 e 2024, os homicídios ocultos cresceram 88,6%, passando de 3.755 para 7.083, com a taxa evoluindo de 1,8 para 3,3 a cada 100 mil habitantes ─ uma expansão de 83,3%.
Em consequência, os homicídios ocultos responderam por 14,3% dos homicídios estimados em 2024, contra 7,6% em 2023.
No acumulado entre 2014 e 2024, o Brasil registrou em torno de 55.212 homicídios ocultos, com uma média anual de 5.019,3 casos. Já o total de homicídios estimados alcançou 638.805 no período.
Os homicídios estimados tiveram distribuição territorial desigual em 2024, com as maiores taxas observadas no Amapá (47,1), Ceará (43,7), Bahia (42,6), Alagoas (39,8) e Pernambuco (38,6).
Já os menores níveis ocorreram em Santa Catarina (8,8), que segue na posição de estado com menor letalidade no país. Em seguida, estão Distrito Federal (10,9), São Paulo (12,8), Rio Grande do Sul (15,9) e Minas Gerais (18,5). Ao todo, 16 UFs apresentaram taxa estimada acima da taxa nacional.
No período de 2014 a 2024, a taxa estimada nacional caiu 26,9%, indicando melhora relevante em relação ao início da série. Apesar disso, o Atlas indica que permanecem casos de agravamento ou de melhora insuficiente.
O Amapá foi o estado com maior aumento da taxa estimada no período (+24,3%), seguido por Pernambuco (+0,8%). No sentido inverso, as maiores reduções ocorreram no Distrito Federal (-64,8%), em Goiás (-56,9%), em Sergipe (-53,4%), no Rio Grande do Norte (-46,7%) e em Alagoas (-39,6%).
Homicídios de jovens caem um terço no Brasil entre 2014 e 2024
A taxa de homicídios de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil caiu 33,9% entre 2014 e 2024, mostra o Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).



Nesses 10 anos, o país teve 301.825 jovens assassinados nessa faixa etária, o que equivale a 75 por dia e representa 46,5% das vítimas de homicídios no país.
As maiores reduções na taxa de homicídios de jovens foram no Distrito Federal (-79,6%), Goiás (-67,8%) e São Paulo (-58,0%), sendo que alguns estados registraram aumento, como Amapá (+45,2%), Pernambuco (+7,5%) e Bahia (+6,4%).
Quando observados apenas os homens jovens, a taxa caiu 39,1% entre 2014 e 2024. A maior queda foi registrada no Distrito Federal (81,7%).
Segundo o Atlas da Violência, em 2024, 19.801 jovens foram assassinados, com taxa de 42,2 homicídios por 100 mil habitantes.
A pesquisa aponta ainda que, se forem considerados os homicídios ocultos, que são casos prováveis de assassinato que não foram oficialmente registrados, a taxa estimada sobe para 46,1 homicídios por 100 mil pessoas.
A menor taxa de homicídio por 100 mil jovens no país, em 2024, foi encontrada no estado de São Paulo (10,7), com os maiores índices no Amapá e na Bahia, onde houve 114,7 e 101,8 homicídios por 100 mil jovens, respectivamente.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que, a cada ano, cerca de 193 mil jovens morrem violentamente no mundo. Os homicídios de jovens entre 15 e 29 anos respondem por cerca de 40% das mortes violentas globais.
A OMS acrescenta que, para cada jovem morto, muitos sobrevivem apresentando ferimentos graves que afetam seu desenvolvimento psicológico, educacional e social, além de graves sequelas.
Violência armada e masculina
Do total de 19,8 mil jovens assassinados em 2024, 18.545 eram homens, o que representa uma taxa de homicídios de 78 por 100 mil, quase o dobro da taxa geral.
O estudo ressalta que a violência letal é predominantemente masculina e armada, resultante de fatores estruturais e concentrada, em grande parte, em regiões pobres e periféricas.
Dos 54 jovens mortos diariamente em 2024, 51 eram homens. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, as armas de fogo foram utilizadas em 84,1% dos homicídios.
O coordenador do Atlas da Violência, Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, afirmou à Agência Brasil que uma questão central é que, antes da morte física do indivíduo, existiu um ciclo de violência em sua vida, desde o nascimento.
“É um grito de alerta para tentar decidir o que a gente quer fazer com as nossas crianças, adolescentes e jovens, que são o futuro da nação”, alertou.
Crianças e adolescentes
O Atlas da Violência 2026 também informa a violência contra crianças e adolescentes. Em 2024, ocorreram 179 homicídios de infantes (0 a 4 anos), uma taxa de 1,4 morte a cada 100 mil vivos.
Entre 2014 e 2024, houve redução de 14,8% no número de assassinados nessa faixa etária, embora a taxa tenha permanecido estável.
Entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos, foram registrados 320 homicídios em 2024, ou 1,1 morte por 100 mil.
No período de 2014 a 2024, o número de homicídios nessa faixa etária caiu 63,2%, e a taxa por 100 mil habitantes recuou 60,7%.
A violência letal foi mais intensa entre adolescentes (15 a 19 anos), embora tenha havido redução de 55,8% no número de homicídios, que passaram de 10.348, em 2014, para 4.570, em 2024. Já a taxa caiu de 60,3 homicídios por 100 mil para 30,5.
O Atlas aponta que, no total, cerca de 14 crianças e adolescentes, entre 0 e 19 anos, foram assassinados por dia no Brasil, em 2024.
Armas de fogo
O Atlas revela forte predominância do uso de armas de fogo nos homicídios de adolescentes de 15 a 19 anos (84,1% dos casos), sugerindo dinâmicas típicas da violência interpessoal de contextos urbanos.
Já entre crianças de 5 a 14 anos, embora a maior parte dos óbitos esteja relacionado a armas de fogo (69,5%), há participação também de meios contundentes (6,6%) e perfurantes (12,7%), além de registros com instrumento desconhecido (4,1%), o que dificulta a classificação do homicídio.
Entre infantes de 0 a 4 anos, há maior dispersão dos meios de agressão, com menor predominância de armas de fogo (20,3%) e participação expressiva de instrumentos classificados como desconhecidos (36,7%) e contundentes (19,3%).
O Atlas sustenta que a violência se torna mais letal e associada diretamente ao uso de armas de fogo à medida que a idade avança. Por isso, é destacada a importância de políticas de controle de armas, visando à redução dos homicídios nessa faixa etária.
A violência doméstica liderou os tipos de violência praticados contra crianças e adolescentes entre 2014 e 2024, com 676.282 casos registrados, sendo:
- 253.199 na fase de 0 a 4 anos,
- 279.542 em crianças de 5 a 14 anos,
- 143.541 em adolescentes de 15 a 19 anos.
Em relação às crianças menores, a sugestão é a adoção de estratégias que protejam o infante no ambiente doméstico, bem como a prevenção de maus tratos e identificação de situações de risco antes que elas possam ocorrer.





