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23 de outubro de 2026Wilhan Santin
Redação Paiquerê
Há exatamente 54 anos, em 23 de outubro de 1972, o agricultor Herbert Bartz fez o primeiro plantio direto na palha em escala comercial da América Latina, em sua Fazenda Rhenania, no município de Rolândia, Norte do Paraná.
É por isso que, em 2023, uma lei federal instituiu o 23 de outubro como o Dia Nacional do Plantio Direto.
É um momento propício para recordarmos esta história fantástica, do “alemão louco” que começou uma revolução na agricultura tropical.
Herbert Bartz, na verdade, nasceu no Brasil, em Rio do Sul, Santa Catarina, no dia 14 de fevereiro de 1937, filho de pai e mãe alemães. Ainda criança, ele foi com a sua mãe, Johanna, à Alemanha porque ela precisava fazer um tratamento de saúde. Meses depois, Arnold, o pai de Herbert, foi até lá para pagar os médicos e trazer a família de volta ao Brasil. Porém, estava começando a Segunda Guerra Mundial e a família Bartz foi proibida de deixar o país.
Herbert Bartz passou a infância em meio à guerra, convivendo com o medo dos bombardeios e a privação de alimentos.
Em 13 de fevereiro de 1945, ele estava em Dresden. Ao anoitecer daquela terça-feira, um imenso ataque aéreo com bombas incendiárias, comandado por forças britânicas, arrasou a cidade alemã cortada pelo Rio Elba. No dia seguinte, 14, cuja madrugada foi toda de bombardeios, Herbert Bartz completou oito anos de idade.
O número exato de mortos nos bombardeios de Dresden nunca foi um consenso entre autoridades e nem entre historiadores. Foram oficialmente identificados 39.773 corpos. Herbert Bartz sobreviveu escondido em um porão, onde a temperatura chegou a 80 graus Celsius. Os dias seguintes foram de fome.
Por isso, quando voltou ao Brasil, em 1960, e se estabeleceu com seu pai e seus irmãos em Rolândia, ele tinha uma certeza: o alimento era sagrado. E da terra vermelha queria produzir o máximo que pudesse.
No entanto, o grande problema da época era a erosão. A prática era arar e gradear o solo antes do plantio. A terra ficava nua. Era a terra tombada como se dizia e se cantava.
Com a terra desprotegida, vinham as chuvas e levavam morro abaixo, muitas vezes para os rios e riachos, toneladas de solo, sementes e fertilizantes, deixando um rastro de valetas e prejuízos.
Herbert Bartz não se conformava com aquela situação. Deu o basta em uma noite de tempestade, quando foi para o meio da lavoura que tinha acabado de plantar e viu muito de perto toda aquela destruição.
Ele financiou passagens aéreas, em dez parcelas, e viajou em busca de soluções. Na Europa, nada encontrou, mas nos Estados Unidos, mais precisamente no estado do Kentucky, estava a solução.
Em Lexington, Bartz encontrou o pesquisador Shirley Philips e o agricultor Harry Young Júnior, que estavam fazendo experiências com plantios sem utilizar arados desde 1962, deixando a palhada sobre a terra para protegê-la.
Imediatamente, Herbert Bartz foi à Allis-Chalmers, indústria que fabricava a plantadeira capaz de fazer o plantio direto e encomendou uma, que os americanos aceitaram entregar no Brasil.
Assim, em resumo, no dia 23 de outubro de 1972, com esta Allis-Chalmers, Herbert Bartz plantou pela primeira vez sem revolver o solo.
Vizinhos que passavam e viam cena daquele homem pilotando o trator e plantando sobre a palha, balançavam a cabeça, tristes. E o apelido alemão louco correu de porteira em porteira.
Ele não se importou com os céticos e, pouco a pouco, convenceu outros visionários. Hoje, louco é quem não faz plantio direto.
A cobertura sobre o solo praticamente acabou com a erosão, ajudou a armazenar água no subsolo, protegeu os bichinhos amigos da terra, como as minhocas e agregou fertilidade, com a palhada virando matéria orgânica ao se decompor.
Ao longo dos anos, a técnica evoluiu, tornou-se o Sistema Plantio Direto, impulsionado pela curiosidade de agricultores e grandes trabalhos de pesquisadores, do Iapar, da Embrapa, das universidades, das indústrias de implementos e defensivos. Desde 1992, a Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto faz um grande trabalho para conservar os solos do Brasil.
Herbert Bartz nos deixou em 29 de janeiro de 2021. A convite da filha dele, Marie Bartz, uma das maiores pesquisadoras do mundo em biologia do solo, e com o apoio de Johann Bartz e Luiza Bartz, respectivamente filho e esposa de Herbert, eu tive a honra de escrever a biografia deste pioneiro, em 2018. Foram dezenas de entrevistas com ele e aprendizados para a vida toda.
Viva o Sistema Plantio Direto. Vamos honrar este legado.




