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O Festival de Dança de Londrina 2026 encerrou sua programação no último sábado, dia 31, com o Teatro Ouro Verde lotado para assistir a “Um sim à vida”, espetáculo da filósofa, poeta e psicanalista Viviane Mosé, ovacionada pelo público e com grande repercussão nas redes sociais pelo potencial da montagem em tocar em temas contemporâneos. Foi a coroação de nove dias que mobilizaram corpos e pensamentos em torno da arte do movimento e das fronteiras da dança com outras linguagens, como o teatro, a música e a poesia. Cerca de 4500 pessoas frequentaram espetáculos, oficina e conferência de artistas do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, além da Bélgica. As atrações ocuparam o Teatro Ouro Verde, Teatro da AML Cultural, Usina Cultural e o Museu de Arte de Londrina. O Festival tem coordenação geral de Danieli Pereira, que assina a curadoria em parceria com Renato Forin Jr., coordenador de comunicação.
O Festival é uma produção da APD – Associação dos Profissionais de Dança de Londrina e Região Norte do Paraná, com patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura – Prefeitura Municipal de Londrina. Também é fruto de projeto aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura – Governo do Paraná, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Ministério da Cultura – Governo Federal, e realização da HotMilk e PUC-PR. O apoio é da Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina.
Iniciado em clima de tensão, às vésperas das eleições presidenciais do segundo turno, no dia 23 de outubro, o Festival elegeu como eixo curatorial o tema “Dançar, Agir, Pensar a Golpes de Martelo”, um convite ao público utilizar a ferramenta como quer o filósofo Nietzsche: não como objeto bruto, mas como um leve diapasão que serve para tocar e ouvir “ídolos” ocos, verdades fabricadas. “Como transpareceu na imagem do nosso cartaz, dentre outras possibilidades de interpretação, trata-se de um modo de fazer a arte abrir fendas de luz em blocos do poder hegemônico e pensar no perigo das histórias que nos contam como narrativas únicas. Os espetáculos, em geral passam por estas questões, além de vários se guiarem pelo ideário nietzscheano, como os das duas últimas noites”, explica Forin Jr., criador do conceito.
Na abertura, filas se formaram no Calçadão, em frente ao Teatro Ouro Verde, para assistir à apresentação gratuita do Ballet de Londrina, com participação especial da Orquestra Bravi, em “A vida é um dia”, uma das estreias mais celebradas nos 33 anos da companhia oficial do Município. Estreada no último agosto, a montagem, que tem coreografia de Alex Soares, remete a um olhar íntimo e dissidente da história oficial de Londrina, a partir da ótica de uma mulher kaingang e negra, que habitava a terra vermelha antes da chegada dos ingleses. No dia seguinte, as crianças se divertiram com o grupo goiano Ateliê do Gesto, no espetáculo cênico “Fica comigo”, que também trata de lembranças inventadas e reais por meio de um Guardador de Memórias, personagem que resolve abrir as caixas do passado com o auxílio de três bonecos.
No domingo, enquanto o país aguardava ansioso pelo resultado do segundo turno das eleições, a londrinense Edna Aguiar levava o público a um mergulho no Brasil profundo com sua “Brasiliana”, na Usina Cultural, outra montagem que investiga a linhagem de mulheres anônimas que fazem um país a despeito de violências simbólicas e reais. Na segunda-feira, dia 26, o dançarino belga Maxime Cozic, da Dame de Pic/Cie Karine Ponties, ocupou o palco do Ouro Verde com o solo “Soute à bagages”, impressionando o público com sua habilidade corporal singular. O espetáculo internacional da programação levou para o centro do palco um enorme bloco que parecia remeter à ruína de que falava a curadoria, e o utilizava para questionar as relações do objeto com um corpo vivo na viagem que empreendemos no tempo.
Na terça-feira, centenas de famílias lotaram o teatro para a noite Dança Londrina Clássicos, com participações do Ballet Luana Prado e da Escola Municipal de Dança. Mais de 70 bailarinas e bailarinos encenaram suítes de “Dom Quixote” e “O Quebra-Nozes”, transformando o palco do Ouro Verde ora em uma praça de Barcelona, ora em um reino encantado onde tudo é feito de doces. No mesmo dia, mais cedo, a mestra da cultura popular maranhense Ana Maria Carvalho reuniu crianças e adultos brincantes na oficina “Cofo de histórias e brincadeiras dançadas”, no Museu de Arte de Londrina. A oficina trouxe uma prévia da animação do que seria o show da mestra na noite de quarta-feira, dia 28, “Bordados de Música”. Do palco da AML Cultural, o público finalizou cantando na rua guiado pela artista e embalado por cantigas do Boi., em pleno Centro Histórico de Londrina, embaixo de uma chuva fina. “Festival de dança convida à vida” – lia-se no estandarte que passou pela multidão.
Destaques nacionais – Na quinta-feira, dia 29, um dos principais grupos do país, a Quasar Cia de Dança, de Goiânia, apresentou a problemática da devastação do Cerrado no espetáculo “Menos da metade”. Oito bailarinos performaram os impactos de temporais, da seca, do desmatamento e de queimadas na fauna e na flora do segundo maior bioma do país. Sexta-feira, dia 30, marcou a primeira apresentação do espetáculo solo “Do cavalo nada sabemos” em um festival nacional. Protagonizado pelo ator paulistano João Paulo Lorenzon, com direção de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, a peça parte de um episódio real da vida do filósofo Friedrich Nietzsche e questiona a reação humana diante da brutalidade. O espetáculo foi seguido por um bate-papo com o ator e com a preparadora corporal Lu Favoreto, natural de Londrina.
“Um sim à vida”, de Viviane Mosé, marcou o encerramento do festival no sábado à noite. A filósofa arrancou aplausos e risadas do vasto público presente no teatro, reafirmando a importância da dança como vivificadora da existência. O espetáculo foi seguido de bate-papo e sessão de autógrafos com Viviane. A programação do sábado havia começado pela manhã, com a conferência e bate-papo “Dançar para contar outras histórias”, conduzida pelo crítico de dança Henrique Rochelle, com mediação de Renato Forin Jr. Rochelle acompanhou toda a programação do festival, a convite da coordenação, e expressa os diferenciais do evento londrinense:
“O festival daqui tem uma coisa muito importante que é a proposta artivista e a assinatura curatorial da programação. Frequentemente a gente tem visto festivais que tentam escapar desse tipo de compromisso, de posicionamento, de escolha. E aqui, no caso de Londrina, isso é parte do que mais chama a atenção da proposta do evento. O texto curatorial fala dessa abordagem e a gente a percebe muito bem nas obras apresentadas”. A vinheta do Festival de Dança de Londrina 2026 reforçou, a cada noite, a importância de tomarmos decisões acertadas que não comprometam o futuro de gerações. Mantendo a tradição, o evento se posicionou publicamente em um momento crucial do país e, mais uma vez, fez história.
Com Assessoria




